Conversei sobre minhas dificuldades de decisão com meu amigo Davi Charles Gomes, que buscou me esclarecer sobre três “peneiras” às quais era útil, para um cristão, submeter suas opções. “A primeira é a normativa”, disse-me, “pois antes de tudo precisamos saber se o que cogitamos fazer é lícito diante de Deus.” Confidenciei-lhe que, de fato, as opções que me restavam já haviam passado por esse crivo. “Ótimo”, respondeu. “A segunda é a circunstancial (situacional), que consiste em testar os limites da realidade para o que pensamos fazer.” Ou seja, eu deveria conhecer os trâmites de cada uma de minhas opções, para saber se poderia realizá-las. Deus, nessa segunda peneira, me ajudaria a discernir entre objetivos alcançáveis e inalcançáveis. Finalmente, a terceira peneira, o coração (existencial). “Se o que você pensa fazer está correto segundo os padrões de Deus e é realizável, resta decidir o que você mesma quer mais.” Ponderei que até cristãos costumam pular diretamente para a terceira peneira, com uma impaciência que acaba sendo fonte de muitos arrependimentos.

A igreja evangélica brasileira costuma de fato confundir as três peneiras, aplicando-as sem critério. Limites normativos são impostos em questões de menor importância, enquanto um deslimite subjetivista dilui claras instruções bíblicas. “Por isso é importante utilizar sempre os três critérios na ordem”, concluiu ele.

Toda essa conversa brotou-me à mente enquanto lia um livro sobre Rimbaud, poeta francês que, brigado com Deus, buscava se superar pela palavra. Seus poemas revelam uma luta constante contra uma profunda falta de esperança, o sentimento de fatalidade, o medo da inexistência de um “além” libertador e o risco constante de aniquilamento do eu. Se a vida com Deus se resume a progressivos “sim” que damos a Ele, paradoxalmente somos mais livres quando a peneira menor – nossos desejos – está contida na maior, a dos desígnios santos de um Deus santo e apaixonado por nós. É quando podemos nos referir com alegria à perfeita liberdade em Cristo, que nos faz exclamar como Sulamita ao rei Salomão: “Eu sou do meu amado.”

 

Update 1: Esse texto foi publicado originalmente em 2006, no Jornal Palavra, que não existe mais.

Update 2: Hoje eu sei que Davi estava me dando uma lição de Triperspectivalismo. 🙂 Essa sacada incrível do teólogo John Frame tem norteado muito do que penso desde então. Serve não só para tomar decisões, mas para detectar inconsistências nos sistemas de pensamento mais sofisticados. Vern Poythress oferece uma análise ampla de vários deles em seus livros.

Update 3: Um rapaz me perguntou no Instagram se deveria namorar uma jovem piedosa, mas sem sentir atração por ela e sem achá-la bonita. De acordo com o critério das três peneiras, ele parece estar priorizando a ordem de Deus contra jugo desigual (Normativo), o que é correto, mas deixando de lado um ponto importante no casamento, a atração, que é uma preferência do coração (Existencial). Nesse caso, eu lhe respondi que pensasse se há possibilidade de mudança. Se não, é melhor não namorar.

Update 4: Em dias de pandemia pelo Coronavírus, use as três peneiras para todas as decisões a tomar, na ordem: o que a vontade expressa de Deus nos ordena em sua Palavra; o que as circunstâncias permitem; o que está no coração. Há cristãos que ignoram a Normativa, sempre com péssimos resultados. Há os que têm dificuldade de aplicar a vontade de Deus às situações concretas e fecham os olhos para os limites da realidade (por exemplo, pastores que estão deixando suas igrejas abertas para reuniões com mais de cem membros). E há os que acreditam que os desejos pessoais não importam. Mas Deus criou as três perspectivas. Não menospreze nenhuma delas. 

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