Texto publicado originalmente na revista da Box95

Quando li pela primeira vez o livro de Rute, eu estava em uma situação bastante difícil. Aos vinte e poucos anos, solteira e morando com os pais, era a única convertida da família – espremendo-me devagar e doloridamente para fora dos velhos padrões – quando me reconheci apaixonada por um homem que havia disfarçado aos olhos alheios sua condição de “casado e enrolado”: a mulher tinha saído de casa e ele continuava atraindo a presença feminina, exibindo despreocupado a mão esquerda sem aliança. Era-me três vezes proibido: além de casado, pertencia a outro braço da confissão cristã e, pelo pouco que sabia da Bíblia, via-se com clareza que não conhecia o Deus verdadeiro. Quando dei por mim, porém, apesar de todos esses empecilhos, estava chorando e pedindo a Deus o que não poderia obter.
O livro de Rute, nesse contexto, foi um raio de realidade que explodiu na minha cabeça. A situação dela era bem mais complicada que a minha. Não se sabe quando foi escrito – segundo a Bíblia de Genebra, provavelmente no período em que reinou Davi (c. 1.000 a.C.) – , mas se depreende de toda a Escritura que, nos tempos antigos, o desamparo da mulher que ficasse sem marido era bem maior que hoje.

Viúvas e sem sustento, Noemi e Rute, sua nora, voltam de Moabe a Belém, causando pena aos moradores locais (Rt 1.19). Na época, a lei (Lv 19.9-10, Dt 24.19) mandava que se deixassem produtos das colheitas para os pobres. Rute propôs beneficiar-se desse costume e acabou colhendo nas terras de um parente de Noemi, Boaz, que tinha “muitos bens” (2.1) e ainda era um de seus resgatadores, ou seja, o parente responsável por receber a viúva em casamento. Por isso Noemi dá aqueles conselhos a Rute que hoje nos soam tão estranhos: arrumar-se toda bonitona e deitar aos pés de Boaz. O que nos parece algo impróprio era, na verdade, um pedido não verbal de “casa comigo”, o que Rute faz também verbalmente: “Estende a capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador” (3.9). A resposta de Boaz, tão acolhedora, nos emociona e faz pensar que ele queria o mesmo desde que a viu nos campos (2.5-7, 3.10). Mas o resgate era um processo delicado, com várias regras, como explicou ele a Rute: “outro resgatador há mais chegado do que eu. (…) se ele te quiser resgatar, bem está, que te resgate; porém, se não lhe apraz resgatar-te, eu o farei, tão certo como vive o Senhor” (3.13). Boaz era um homem honrado e cumpridor das leis de Deus. Jamais poria seus desejos acima do respeito ao Senhor, à comunidade e à própria Rute. Todo o episódio demonstra integridade, retidão, paciência e fé. E Boaz, como sabemos, foi recompensado.

Perdida em meio a tanta confusão relacional no mundo – intimidades excessivas sem garantia alguma, traições banalizadas, votos conjugais rompidos por quase nada –, fui ensinada por Deus, aos vinte anos, que Suas decisões são morais. Por que Ele escolheria para mim um homem que, tendo desonrado o primeiro compromisso sem sinais de grandes arrependimentos, já demonstrava dubiedade e impiedade? Eu era responsável pelo que via e precisava aprender a dizer não. Os anos que se seguiram, em que eu desaprendia os jeitos do mundo e aprendia os de Deus, foram preparação para o casamento que vivo agora – e a qualidade de meu casamento me espanta sempre que olho para trás e vislumbro de onde vim. O livro de Rute, tanto tempo depois, ainda me emociona como na primeira leitura. Que seja um modelo para você também, hoje, essa história de amor em que a necessidade das viúvas, os costumes humanos e os valores do Reino foram belamente concertados pela mão de nosso Senhor.

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