Passei rápido no vestibular, mas perambulei por Psicologia e Jornalismo até decidir a faculdade que queria: Letras. Ainda assim, levei o dobro do tempo de uma graduação para completar o curso.

Converti-me aos 24 anos, no meio da graduação. Fiz mestrado e doutorado em literatura francesa, só para descobrir que a carreira acadêmica em Letras já não era tão atraente para mim, por dois motivos principais: meu maior desejo era entender a arte a partir da teologia cristã, e para isso eu precisaria de liberdade para ler o que quisesse e estabelecer minha própria trajetória.

Fui professora de francês por toda a vida, e das boas, mas enjoei quase completamente (sempre amarei o idioma).

Conheci o amor da minha vida aos 37 e casei dois anos depois, em julho de 2010. Em outubro, engravidei e perdi o bebê com cinco meses de gestação. Parei de comer glúten logo após, quando descobri que melhorava da enxaqueca, e de tomar leite e derivados em 2011, após o teste de intolerância à lactose. Eu e André passamos um ano em Salvador, um ano em Fortaleza e estamos em Natal há sete anos. Desde então, descobri várias doenças: Hashimoto, Adenomiose, Condromalácia. Comecei a fazer o Protocolo da Vitamina D para doenças autoimunes e o médico associou minhas condições não tratadas à perda do bebê. Nesses anos, passei por fases de melhora, mas nunca me senti consistentemente bem.

No campo emocional, lutei com questões fundamentais, sobre meu passado, durante muitos anos, até uma depressão quase me derrubar e eu ser ajudada de um modo pouco convencional, mas muito bíblico!

Olhando para trás, percebo espantada que 2019 foi um ano de definições: resultados de processos antigos e longos, com o estabelecimento de decisões duráveis.

Em janeiro, defendi minha dissertação sobre idolatria no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper — um curso confessional com professores mais que professores, amigos, cujas aulas me transformaram de modos que jamais conseguirei expressar inteiramente. O tema surgiu de um dualismo que percebi em mim mesma: estava mantendo em separado meus interesses teológicos e meu desejo de melhorar a própria imagem, excessivo a meus olhos. Nesse caso, o desejo excessivo e descontrolado, traduzido em muitas compras, precisava ser trazido à presença de Deus e compreendido pelo prisma de uma cosmovisão cristã. Com a boa teologia do Jumper, fui bem-sucedida nisso — tão bem-sucedida, na verdade, que decidi levar o combate ao dualismo para essa arena, em duas frentes: a beleza teórica-teológica e a beleza feminina.

Então compreendi que a beleza — divina, criacional, artística — está no centro de minha vocação. Em fevereiro, terminei minha primeira formação como consultora de imagem, com Patrícia Marques da Closet Inteligente, que carinhosamente me ajudou a decidir enveredar por essa área com passos mais seguros; meses depois, completei uma segunda formação mais curta, com Érica Minchin, uma questionadora incansável que também ama literatura — a identificação foi inevitável! Ambas foram fundamentais para a consultora que sou hoje (e ainda quero ser, pois estamos sempre em processo!). Além de amar trabalhar com gente, entendo que essa prática é parte importante de minha vocação no Reino de Deus, iluminando e dando consistência aos aspectos teóricos que também me fascinam.

Em maio, por indicação do meu amigo Yago Martins, contactei o Fernando Sergio da Agência do Reino para me ajudar nesse projeto. Depois de quinze anos sendo lida e ouvida pela igreja, inaugurei no dia 12 de outubro a “criança” só minha, meu primeiro site com domínio próprio, Teologia & Beleza, explicitando esse novo foco — que na verdade nunca foi novo (quem leu A mente de Cristo sabe), mas Deus precisou trabalhar em mim para que eu abraçasse essa vocação mais específica com reconhecimento, garra e alegria.

Em novembro, depois de uma terceira crise violenta de sangramento intestinal, resolvi responsabilizar-me por tudo o que já havia lido sobre o assunto da alimentação e considerar-me celíaca. Encarei o fato (provado pelos especialistas) de que não existe intolerância ao glúten tal como existe ao leite: quem tem problemas com glúten precisa tomar cuidado com a mínima poeirinha. Isso implicou o sacrifício não só de abster-me de glúten (o que já fazia), mas de abster-me de qualquer alimento que tenha sido preparado em cozinhas onde há a presença de glúten. Em Natal, isso significou nunca mais comer fora de casa. Mas sinto pela primeira vez que meu intestino se recupera bem. E os sintomas neurológicos estão desaparecendo de modo mais consistente, o que me tornou muito mais capaz de cumprir as tarefas do final de ano.

O que não mudou? O amor pela escrita e a busca de sentidos pessoais, ou seja, a tentativa de registrar o vislumbre dos desenhos que Deus tece nessa tapeçaria que é nossa vida.

No finalzinho deste mês de dezembro, apesar de não estar em plena forma — enxaqueca de TPM, barriga estufada, dores no corpo e feridas nos pés por ter caído de um banco de plástico que se quebrou —, consegui ter dias plenamente produtivos. Após constatar que o objetivo que estabeleci em janeiro de 2019 (foco na disciplina) ainda precisava de ajustes, pus no papel todas as atividades que quero e preciso incorporar ao dia-a-dia: devocional, exercício físico (esse não foi cumprido por motivos óbvios), postagens no Instagram e no site, marcação de consultas médicas, análises e elaboração de dossiês para as consultorias, estudos. Ainda tive a coragem de anotar todas as leituras começadas e inacabadas, de anos, chegando a dezoito itens, que coloquei em ordem de prioridade para 2020. Já consegui terminar um. Dada a minha proverbial desorganização de uma vida inteira, considero essa rotina um milagre a cada vez que se repete.

Uma palavra para você: não tenha pressa. A vida não se resolve em um dia e nem em poucos anos. Deus sabe o que faz.

Senhor, obrigada pelos milagres sucessivos. Que venham mais em 2020!

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